Deutschtum, Volkstum, Auslandsdeutsche, Volksgemeinschaft e Völkisch
1. Século XIX: cultura, língua, nação e germanidade fora do Estado alemão

No século XIX, antes e depois da unificação alemã de 1871, formou-se a ideia de que os alemães não eram definidos apenas por um Estado, mas também por língua, cultura, origem, memória histórica e pertencimento nacional. Nesse contexto, ganharam força ideias como Deutschtum e Volkstum.¹
Volkstum, nesse período, podia significar o caráter próprio de um povo: língua, costumes, tradição, modo de vida e continuidade cultural. Mas o termo já carregava uma tendência problemática: transformar cultura em essência coletiva. O povo não era visto apenas como comunidade política, mas como comunidade histórica, cultural e, pouco a pouco, também de origem.
Nesse mesmo ambiente surgiu a preocupação com os alemães fora da Alemanha. A emigração passou a ser vista por nacionalistas alemães não apenas como saída de pessoas, mas como risco de perda nacional. Daí a importância crescente dos Auslandsdeutsche, os alemães no exterior.²
2. 1871–1918: Império Alemão, expansão nacional e Auslandsdeutsche
Com a fundação do Império Alemão, em 1871, a ideia de germanidade ganhou base estatal, econômica, militar e imperial.³ O Estado alemão passou a olhar com mais interesse para comunidades alemãs fora da Alemanha.
Nesse período, Auslandsdeutsche tornou-se uma categoria cada vez mais importante: alemães vivendo fora do território alemão ou comunidades de origem alemã que, segundo muitos discursos nacionalistas, deveriam permanecer vinculadas à língua, à cultura e aos interesses alemães.
Aqui entram casos como Brasil, Estados Unidos, Argentina, Chile, Paraguai e também comunidades alemãs no Império Russo. A diferença estava no grau de assimilação. Nos Estados Unidos, a assimilação era vista como mais forte; no sul do Brasil, certos círculos alemães viam maior possibilidade de preservar comunidades alemãs organizadas e relativamente separadas.⁴
3. Fim do século XIX e início do século XX: völkisch e radicalização da ideia de povo
Entre o fim do século XIX e o início do século XX, o pensamento völkisch ganhou força.⁵ Völkisch vem de Volk, povo, mas não significa simplesmente “popular”. Designa uma visão de mundo baseada em povo, origem, sangue, terra, cultura, destino e exclusão.
Aqui ocorre uma mudança decisiva: língua e cultura passam a ser cada vez mais ligadas a descendência, sangue e essência do povo. O pertencimento alemão deixa de ser apenas cultural ou linguístico e passa a ser pensado como algo herdado.
Nesse contexto, Volkstum também se torna mais carregado. Ele não significa apenas cultura de um povo, mas uma suposta substância histórica e biológica do povo. Essa é a ponte para o conceito posterior de Volksdeutsche.
4. 1918–1933: derrota, Versalhes, minorias alemãs e Volksdeutsche
Depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, em 1918, e do Tratado de Versalhes, a questão dos alemães fora das fronteiras tornou-se ainda mais sensível. Muitos alemães passaram a viver como minorias em novos Estados ou em territórios separados da Alemanha.
Nesse contexto, o termo Volksdeutsche ganhou importância crescente.⁶ Ele designava alemães étnicos fora do Reich: pessoas de origem, língua ou identidade alemã que não eram necessariamente cidadãos alemães. No período entreguerras, essa categoria adquiriu peso político e ideológico ainda maior.
A diferença é importante:
Auslandsdeutsche = alemães no exterior, categoria mais ampla.
Volksdeutsche = alemães étnicos fora do Reich, definidos por origem, língua, descendência e, cada vez mais, sangue.
A Polônia é um caso central e, em muitos aspectos, excepcional, porque envolvia minorias alemãs, fronteiras, revisão territorial e conflito nacional. Os alemães-russos também podem ser classificados nesse contexto: em sentido amplo eram Auslandsdeutsche; em sentido mais étnico-político, especialmente no século XX, eram tratados como Volksdeutsche.
5. 1933–1945: nacional-socialismo, Volksgemeinschaft e política racial
Com o nazismo, esses conceitos foram radicalizados.
Volksgemeinschaft tornou-se uma palavra central da propaganda nazista.⁷ Ela significava “comunidade do povo”, mas não uma comunidade aberta. Era uma comunidade racial, política e ideológica. Incluía quem era considerado pertencente ao povo alemão e excluía judeus, opositores, pessoas consideradas “estranhas à comunidade” e grupos perseguidos.
Nesse período:
völkisch tornou-se linguagem ideológica de sangue, raça, povo e exclusão.
Volkstum passou a servir à ideia de essência étnico-racial do povo.
Volksdeutsche foram tratados como parte do povo alemão fora das fronteiras.
Auslandsdeutsche foram mobilizados como comunidades a serem assistidas, organizadas e vinculadas ao Reich.
Volksgemeinschaft ofereceu a moldura total: a comunidade alemã racialmente definida.
Na Polônia, isso assumiu a forma mais extrema: ocupação, germanização, classificação étnica, violência e dominação territorial.⁸ No Brasil, não houve ocupação nem anexação formal, mas houve tentativa de mobilização de comunidades alemãs por meio de escolas, imprensa, associações, NSDAP/AO e redes culturais e econômicas.⁹ Nos Estados Unidos, Argentina, Chile e Paraguai, os efeitos variaram conforme a força das comunidades alemãs, a reação dos Estados nacionais e a presença de redes pró-alemãs ou nazistas.
6. Depois de 1945: conceitos historicamente contaminados
Após 1945, esses conceitos ficaram profundamente marcados pelo uso nacional-socialista.¹⁰Volksgemeinschaft, völkisch e Volksdeutsche tornaram-se termos historicamente carregados, porque foram ligados a exclusão, racismo, guerra, ocupação e genocídio.
Auslandsdeutsche continuou existindo como termo descritivo possível, mas também exige cuidado, porque sua história foi atravessada por políticas nacionalistas e völkisch. Volkstum também se tornou problemático, pois carrega a ideia de povo como essência cultural-étnica.
Por isso, em um artigo crítico, esses termos não devem ser usados como palavras neutras. Eles devem ser tratados e explicados como conceitos históricos de pertencimento, poder, hierarquização e exclusão.
1) Cf. GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Deutsches Wörterbuch, verbetes “deutsch”, “-tum” e “Volkstum”; MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964; KOSELLECK, Reinhart. Begriffsgeschichten: Studien zur Semantik und Pragmatik der politischen und sozialen Sprache. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2006.
2) Cf. CRONENBERG, Allen Thomson Jr. The Volksbund für das Deutschtum im Ausland: Völkisch Ideology and German Foreign Policy, 1881–1939. PhD dissertation, Stanford University, 1970, p. 51; SCHULZE, Frederik. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422.
3) Cf. WEHLER, Hans-Ulrich. Das Deutsche Kaiserreich 1871–1918. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1973; WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen, v. 1: Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. München: C. H. Beck, 2000; BLACKBOURN, David. History of Germany 1780–1918: The Long Nineteenth Century. Oxford: Blackwell, 1997.
4) Cf. EPP, Friedrich. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim: J. Schneider, 1864; LUEBKE, Frederick C. Germans in Brazil: A Comparative History of Cultural Conflict During World War I. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1987; SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981; SCHULZE, “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil”, p. 405–422.
5) Cf. MOSSE, The Crisis of German Ideology; PUSCHNER, Uwe. Die völkische Bewegung im wilhelminischen Kaiserreich: Sprache, Rasse, Religion. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 2001; STERN, Fritz. The Politics of Cultural Despair: A Study in the Rise of the Germanic Ideology. Berkeley: University of California Press, 1961.
6) Cf. BERGEN, Doris L. “The Nazi Concept of ‘Volksdeutsche’ and the Exacerbation of Anti-Semitism in Eastern Europe, 1939–45”. Journal of Contemporary History, v. 29, n. 4, 1994, p. 569–582; LUMANS, Valdis O. Himmler’s Auxiliaries: The Volksdeutsche Mittelstelle and the German National Minorities of Europe, 1933–1945. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1993.
7) Cf. WILDT, Michael. Volksgemeinschaft als Selbstermächtigung: Gewalt gegen Juden in der deutschen Provinz 1919 bis 1939. Hamburg: Hamburger Edition, 2007; KOONZ, Claudia. The Nazi Conscience. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2003; GELLATELY, Robert. Backing Hitler: Consent and Coercion in Nazi Germany. Oxford: Oxford University Press, 2001.
8) Cf. LUMANS, Himmler’s Auxiliaries; BERGEN, “The Nazi Concept of ‘Volksdeutsche’”, p. 569–582; MAZOWER, Mark. Hitler’s Empire: Nazi Rule in Occupied Europe. London: Allen Lane, 2008; BROWNING, Christopher R. The Origins of the Final Solution: The Evolution of Nazi Jewish Policy, September 1939–March 1942. Lincoln: University of Nebraska Press, 2004.
9) Cf. DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. São Paulo: Todas as Musas, 2012; GERTZ, René Ernaini. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987; SCHULZE, “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil”, p. 405–422; LUEBKE, Germans in Brazil.
10) Cf. FREI, Norbert. Vergangenheitspolitik: Die Anfänge der Bundesrepublik und die NS-Vergangenheit. München: C. H. Beck, 1996; WILDT, Volksgemeinschaft als Selbstermächtigung; MOSSE, The Crisis of German Ideology.
