Deutschtum significa germanidade, mas não no sentido limitado de folclore, idioma ou tradição familiar. O termo expressa uma ideia ampla de pertencimento alemão: língua, cultura, costumes, memória, educação, religião, imprensa, associações, empresas, família, origem e consciência de fazer parte de um mundo alemão maior. Nessa lógica, pessoas de origem alemã, mesmo vivendo fora da Alemanha, continuavam vinculadas a uma comunidade alemã transnacional, definida por língua, origem, lealdade cultural e sentimento de pertencer a um povo alemão.
Em sua forma mais problemática, especialmente quando associado ao pensamento völkisch – que depois seria radicalizado pelo nazismo -, o Deutschtum vinculou o pertencimento alemão à ascendência e ao “sangue”. Ser alemão não era entendido como uma formação cultural aberta, mas como uma característica supostamente herdada. Desse modo, pessoas de origem alemã podiam considerar-se, ou ser consideradas, mesmo fora da Alemanha, parte de um corpo nacional alemão supranacional – ainda que vivessem há muito tempo no Brasil ou fossem cidadãos brasileiros.
No Brasil, especialmente no sul, essa concepção teve consequências concretas. Escolas alemãs, igrejas vinculadas a comunidades alemãs, jornais em língua alemã, associações germânicas, bancos, empresas, redes familiares e formas de trabalho ajudaram a formar espaços germânicos paralelos dentro da sociedade brasileira. Por isso, Deutschtum não expressa apenas uma memória cultural, mas também uma estrutura de preservação, separação, influência e poder.

Deutschtum: a ideia alemã de mundo, povo, sangue e poder
O Deutschtum não nasceu no Brasil. Ele nasceu na própria história alemã, como expressão de uma ideia de pertencimento que foi se tornando cada vez mais ampla, intensa e politizada. A palavra deriva de deutsch e do sufixo -tum, que transforma uma qualidade em uma totalidade. Assim, Deutschtum não significava apenas “ser alemão”, mas o conjunto daquilo que se entendia como mundo alemão: língua, cultura, costumes, memória, educação, origem, comunidade e missão histórica.¹
Durante muito tempo, os povos de língua alemã viveram divididos em reinos, principados, cidades livres e territórios diferentes. Antes de existir um Estado alemão unificado, já existia a ideia de uma comunidade alemã maior, formada por língua, cultura, história e sentimento de pertencimento. Por isso, a identidade alemã foi construída antes do Estado nacional alemão moderno. O Deutschtum deu nome a essa totalidade: aquilo que deveria ser preservado, defendido e transmitido como alemão.²
No século XIX, à medida que a ideia de uma nação alemã unificada ganhava força, o Deutschtum deixou de ser apenas uma referência cultural. Ele passou a expressar uma concepção nacional cada vez mais ambiciosa: a ideia de que a língua, a cultura, a economia, a organização militar, a disciplina social e o modo alemão de ser, trabalhar e permanecer fiel às próprias raízes formavam uma força histórica superior, destinada a afirmar-se também fora das fronteiras alemãs. Fórmulas como “Deutschland über alles” e “Am deutschen Wesen soll die Welt genesen” condensavam esse sentimento de superioridade: a crença de que o modo alemão de ser, pensar, organizar, disciplinar e governar poderia – ou deveria – servir de modelo para outros povos. A cultura alemã deixava de ser apenas uma cultura entre outras; passava a ser apresentada como força superior, disciplinadora e civilizadora.³
Com a fundação do Segundo Império Alemão, em 1871, essa autoconfiança ganhou base estatal, militar, econômica e imperial. A Alemanha unificada passou a se ver como potência tardia, mas destinada a ocupar um lugar de destaque no mundo. A industrialização e o fortalecimento econômico, o Exército, a ciência, a burocracia, a escola e a organização nacional em prol da grandeza do Estado alimentaram a imagem de uma Alemanha forte, moderna e superior – e de um povo alemão apresentado como produtivo, culturalmente elevado e disciplinado a serviço de seus propósitos nacionais, portanto legitimado a exercer liderança, influência e domínio na Europa e no restante do mundo. O Deutschtum passou então a funcionar como linguagem de orgulho nacional, presença global e expansão de influência.⁴
Essa ideia não ficou limitada ao território alemão. Ela acompanhou os alemães no exterior e passou a orientar também a forma como comunidades de origem alemã espalhadas pela Europa e pelo mundo eram vistas: não apenas como emigrantes ou cidadãos de outros países, mas como parte de um Auslandsdeutschtum, isto é, de uma germanidade fora da Alemanha. O alemão deveria permanecer alemão mesmo vivendo fora da Alemanha.⁵
No Brasil, especialmente no sul, essa concepção encontrou expressão concreta. Língua, escola, igreja, imprensa, associações, bancos, empresas, colonização, trabalho e família não serviam apenas à preservação cultural. Em certos espaços, funcionavam como instrumentos de organização de um mundo germânico paralelo dentro da sociedade brasileira. Esse mundo não se limitava à lembrança da terra de origem: estruturava pertencimento, disciplinava comunidades, mantinha vínculos com a Alemanha e podia alimentar a ideia de uma Neudeutschland, uma “Nova Alemanha” em território brasileiro.⁶
Assim, o Deutschtum não era apenas saudade, folclore ou tradição. Em sua dimensão política e völkisch, ele podia funcionar como projeto de separação simbólica, influência econômica, controle comunitário e expansão cultural alemã dentro do Brasil. O resultado foi a formação de espaços sociais, econômicos e identitários nos quais a germanidade se colocava acima da integração plena à sociedade brasileira – um verdadeiro espaço alemão dentro do Estado brasileiro.⁷
O ponto decisivo está na passagem do Deutschtum para o Volkstum. Enquanto Deutschtum podia significar cultura alemã, Volkstum apontava para a ideia de povo como comunidade de origem. O pertencimento alemão passou a ser entendido não apenas como língua ou educação, mas como herança, descendência e sangue. A germanidade deixava de ser apenas uma prática cultural e passava a ser vista como realidade biológica e histórica. Ser alemão significava pertencer ao povo alemão por origem, por linhagem, por sangue.⁷
Essa concepção tornou o Deutschtum especialmente perigoso. Se a identidade alemã era definida pelo sangue, então os descendentes de alemães no exterior não eram vistos apenas como brasileiros de origem alemã, mas como membros de um corpo nacional alemão maior. A cidadania brasileira podia tornar-se secundária diante da origem. A integração podia ser vista como perda. A mistura podia ser vista como ameaça. A preservação da germanidade podia ser apresentada como dever.⁹
A derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial não destruiu esse orgulho. Pelo contrário: em muitos setores, ela produziu ressentimento, sentimento de humilhação e desejo de revanche. O colapso do Império, o Tratado de Versalhes, a crise econômica e a instabilidade política foram interpretados por nacionalistas radicais não como resultado de militarismo e imperialismo, mas como injustiça, traição e enfraquecimento do povo alemão. O orgulho ferido não desapareceu; ele se radicalizou.¹⁰
Foi nesse ambiente que a ideia de povo, sangue e destino nacional se tornou ainda mais agressiva. A Alemanha derrotada buscou recuperar força por meio de uma política cada vez mais radical. O nacional-socialismo não surgiu do nada. Ele herdou e radicalizou elementos já presentes no nacionalismo alemão: o culto ao povo, a obsessão pela unidade nacional, a ideia de superioridade alemã, o anticomunismo, o antissemitismo, o militarismo, o expansionismo e a crença de que a Alemanha precisava de um líder capaz de restaurar sua grandeza.¹¹
Com Hitler, o Deutschtum foi absorvido por uma visão racial de mundo. O que antes podia ser apresentado como cultura, língua e pertencimento tornou-se parte de uma ideologia de sangue, raça, Führer, Estado total e expansão. O Volkstum foi transformado em fundamento político: o povo alemão não era apenas uma comunidade cultural, mas uma comunidade de sangue que deveria ser purificada, mobilizada e expandida. A germanidade no exterior passou a ser vista como recurso político, racial e estratégico.¹²
No Brasil, isso teve consequências importantes. O nazismo encontrou comunidades já organizadas por língua, escola, igreja, imprensa e associações. Isso não significa que todos os descendentes de alemães fossem nazistas, nem que toda cultura alemã no Brasil fosse nazista. Mas significa que existiam estruturas capazes de preservar uma identidade alemã separada, e essas estruturas puderam ser disputadas, mobilizadas e radicalizadas por discursos vindos da Alemanha.¹³
Por isso, o Deutschtum no Brasil não pode ser entendido apenas como folclore, culinária, arquitetura, festas ou sobrenomes. Ele deve ser analisado como parte de uma história maior: a história de uma Alemanha que, em certos momentos, transformou cultura em missão, pertencimento em superioridade, povo em sangue e presença no exterior em instrumento de influência. O Deutschtum expressava muito bem esse orgulho alemão exagerado: a convicção de que o alemão deveria permanecer alemão em qualquer lugar do mundo e de que a germanidade carregava uma força própria, superior e destinada a se afirmar.
Depois de 1945, com a derrota do nazismo, essa linguagem perdeu legitimidade explícita. A República Federal da Alemanha passou a se apresentar de outro modo: democrática, econômica, diplomática, cultural e cooperativa. Mas a relação entre Alemanha e Brasil não terminou. Ela foi reorganizada por meio de empresas, instituições culturais, cooperação técnica, ensino da língua, fundações, intercâmbios e presença econômica. A forma de presença alemã mudou; mas permaneceu a necessidade de lembrar criticamente como essa presença foi construída, organizada e usada no Brasil ao longo do tempo.¹⁴
Compreender o Deutschtum é, portanto, compreender uma longa linha histórica: da cultura alemã ao nacionalismo; do nacionalismo ao orgulho imperial; do orgulho imperial ao ressentimento pós-1918; do ressentimento à radicalização racial; da germanidade cultural ao Volkstum de sangue; e daí ao uso político das comunidades alemãs no exterior.¹⁵
O projeto Brasil-Alemanha Memória existe para tornar essa história visível. Não para alimentar ressentimento, mas para impedir que a memória seja substituída por mito. O sul do Brasil nunca foi Alemanha. Foi e continua sendo Brasil. Mas, em sua história, atuaram ideias, instituições e interesses alemães que precisam ser lembrados, compreendidos e criticamente esclarecidos.
Fontes literárias
¹ Cf. GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Deutsches Wörterbuch. Leipzig: S. Hirzel, 1854–1961, verbetes “deutsch” e “-tum”; KOSELLECK, Reinhart. Begriffsgeschichten: Studien zur Semantik und Pragmatik der politischen und sozialen Sprache. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2006.
² Cf. SCALES, Len. The Shaping of German Identity: Authority and Crisis, 1245–1414. Cambridge: Cambridge University Press, 2012, p. 3–6, 13–15; WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen. v. 1: Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. München: C.H. Beck, 2000.
³ Cf. HOFFMANN VON FALLERSLEBEN, August Heinrich. “Das Lied der Deutschen”. 1841; GEIBEL, Emanuel. “Deutschlands Beruf”. 1861; MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964; WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen. v. 1: Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. München: C.H. Beck, 2000.
⁴ Cf. TREITSCHKE, Heinrich von. Deutsche Geschichte im neunzehnten Jahrhundert. Leipzig: S. Hirzel, 1879–1894; WEHLER, Hans-Ulrich. Das Deutsche Kaiserreich 1871–1918. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1973; BLACKBOURN, David. History of Germany 1780–1918: The Long Nineteenth Century. Oxford: Blackwell, 2003.
⁵ Cf. SCHULZE, Frederik. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422; LUEBKE, Frederick C. Germans in Brazil: A Comparative History of Cultural Conflict During World War I. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1987.
A referência de Schulze aparece em German History, v. 33, n. 3, p. 405–422, e Luebke foi publicado pela Louisiana State University Press em 1987, com xiii + 248 páginas.
⁶ Cf. EPP, Franz [ou F. Epp]. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim, 1864; CASSIDY, Eugene S. Germanness, Civilization, and Slavery: Southern Brazil as German Colonial Space (1819–1888). PhD dissertation, University of Michigan, 2014; SCHULZE, Frederik. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422.
A dissertação de Cassidy aparece com o título completo Germanness, Civilization, and Slavery: Southern Brazil as German Colonial Space (1819–1888) e foi apresentada à University of Michigan.
⁷ Cf. EPP, Franz [ou F. Epp]. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim, 1864; GERTZ, René Ernaini. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987; SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981.
A obra de Gertz aparece catalogada como publicada em Porto Alegre pela Mercado Aberto, em 1987, com 205 páginas; a obra de Seyferth aparece como publicada pela Fundação Catarinense de Cultura em 1981.
⁸ Cf. MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964; WILDT, Michael. Volksgemeinschaft als Selbstermächtigung: Gewalt gegen Juden in der deutschen Provinz 1919 bis 1939. Hamburg: Hamburger Edition, 2007; KOONZ, Claudia. The Nazi Conscience. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2003.
⁹ Cf. MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964; GELLATELY, Robert. Backing Hitler: Consent and Coercion in Nazi Germany. Oxford: Oxford University Press, 2001; KERSHAW, Ian. Hitler. v. 1: 1889–1936: Hubris. London: Allen Lane/Penguin, 1998.
¹⁰ Cf. EVANS, Richard J. The Coming of the Third Reich. London: Allen Lane/Penguin, 2003; KERSHAW, Ian. Hitler. v. 1: 1889–1936: Hubris. London: Allen Lane/Penguin, 1998; WINKLER, Heinrich August. Der lange Weg nach Westen. v. 1: Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. München: C.H. Beck, 2000.
¹¹ Cf. HITLER, Adolf. Mein Kampf. München: Franz Eher Nachfolger, 1925–1926; EVANS, Richard J. The Coming of the Third Reich. London: Allen Lane/Penguin, 2003; KERSHAW, Ian. Hitler. v. 1: 1889–1936: Hubris. London: Allen Lane/Penguin, 1998.
¹² Cf. HITLER, Adolf. Mein Kampf. München: Franz Eher Nachfolger, 1925–1926; WILDT, Michael. Volksgemeinschaft als Selbstermächtigung: Gewalt gegen Juden in der deutschen Provinz 1919 bis 1939. Hamburg: Hamburger Edition, 2007; KOONZ, Claudia. The Nazi Conscience. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2003; GELLATELY, Robert. Backing Hitler: Consent and Coercion in Nazi Germany. Oxford: Oxford University Press, 2001.
¹³ Cf. GERTZ, René Ernaini. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987; DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical?: o partido nazista no Brasil. 2007. Tese (Doutorado em História) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007; SCHULZE, Frederik. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422.
A tese de Dietrich é registrada pela USP como Nazismo tropical?: o partido nazista no Brasil, defendida em 2007; o resumo informa que o partido nazista no Brasil estava inserido numa rede internacional de filiais em 83 países e que o grupo brasileiro foi a maior célula fora da Alemanha.
¹⁴ Cf. FROTSCHER, Méri. “De ‘alemães no exterior’ a brasileiros? A repatriação de cidadãos brasileiros da Alemanha ocupada (1946–1949)”. História Unisinos, São Leopoldo, v. 17, n. 2, maio/ago. 2013, p. 81–96; FROTSCHER, Méri. “‘Uma cinzenta falta de esperança paira sobre todos nós’: uma análise de cartas de mulheres e homens com intenção de emigrar da Alemanha para o Brasil (1946–1950)”. Revista de História, São Paulo, n. 177, 2018.
A referência de Frotscher sobre a repatriação aparece em História Unisinos, v. 17, n. 2, p. 81–96, 2013.
¹⁵ Cf. EPP, Franz [ou F. Epp]. Rio Grande do Sul oder Neudeutschland. Mannheim, 1864; MOSSE, George L. The Crisis of German Ideology: Intellectual Origins of the Third Reich. New York: Grosset & Dunlap, 1964; SCHULZE, Frederik. “‘Auslandsdeutschtum’ in Brazil (1919–1941): Global Discourses and Local Histories”. German History, v. 33, n. 3, 2015, p. 405–422; GERTZ, René Ernaini. O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
